A ECOLOGIA INTERIOR
Retirado do livro No Limiar da Percepção - Eros Salerno
A sustentabilidade é um conceito em Ecologia, que de maneira simplificada e sem entrar no mérito financeiro, diz que um sistema é sustentável quando tem capacidade suficiente para renovar-se, quando uma parte lhe é retirada.
Vamos tentar transpor esse mesmo conceito para o âmbito espiritual.
Já que, é concenso científico a conceituação de Einstein de que “matéria e energia são apenas duas manifestações diferentes da mesma realidade fundamental”, podemos considerar que nossos corpos são formados por energia e estamos mergulhados num imenso universo energético. É como se fôssemos peixes mergulhados em um universo de água, porém com os corpos feitos “da própria água do oceano”. À medida que esses peixes se deslocam ou interagem com o ambiente, como são formados da mesma “substância”, operam trocas essenciais com o oceano muito facilmente.
Assim, em todo movimento que fazemos – desde uma ação física até um pensamento – trocamos, com o meio, parte da nossa energia.
O ser humano autossustentável é aquele capaz de renovar sua energia positivamente e autonomamente, de maneira consciente ou não, de forma que sua resultante energética seja sempre saudável e capaz de mantê-lo em harmonia e contínua evolução. Este é um conceito que também poderíamos atribuir à “ecologia interior humana”.
Uma das chaves para a autossustentabilidade é encontrada quando verdadeiramente nos descobrimos como seres espirituais, integrantes de uma grandiosa rede de consciências em evolução e amorosamente imbuídos da construção e manutenção cósmica.
A rede do amor cósmico é brilhantemente explicada por Lucia Roberta de Mello, no seu livro Amor.net. Em uma das suas dedicatórias num exemplar de Amor.net, endereçada a minha pessoa, Lucia habilmente dá pistas sobre a abrangência e profundidade do amor universal, ao qual podemos nos conectar.
“O amor é um sentimento que abraça muito mais do que podemos imaginar, é a matéria nutriz e condutora de tudo que aparece a partir do Pai e nos atinge e forma.”
“É o que nos faz estar aqui.”
Quando já percebemos conscientemente todo o nosso sistema energético e conseguimos gerir harmonicamente o fluxo de energia por nosso corpo, tornamo-nos autosuficientes conscienciais. Na prática, isto significa que seremos capazes de dinamizar todo o nosso sistema energético sutil, movimentando voluntariamente, através da força de vontade, a energia existente em nossos centros energéticos e canais transportadores – chakras e nadis – mantendo nossa saúde física e extrafísica.
Atingir a autossuficiência consciencial não significa que não precisaremos mais de ajuda e que poderemos nos desconectar da rede do amor cósmico, . Usando um jargão coloquial atual, poderíamos ser tentados pela mente a pensar que somos “descolados espirituais”, mas, na verdade, bastaria o menor resquício de um pensamento prepotente ou presunçoso, para nos desequilibrarmos, caso realmente já estivéssemos em estágio de autossuficiência.
Esse fato ocorre porque a natureza do universo responde sempre à verdadeira natureza das ações e não às ações propriamente ditas.
O conceito de verdadeira natureza da ação vem do Oriente, e é chamado de “Kung Long”, uma expressão tibetana que pode se traduzir como “a arte de viver com ética”. Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, magistralmente revela esse conceito no seu livro “Uma Ética Para O Novo Milênio”.
O Kung Long é a vontade verdadeira que surge do nosso íntimo e caracteriza todas as nossas ações, independente de quais forem. No Ocidente, corresponderia de maneira aproximada à “verdadeira intenção”.
Assim, a partir do momento em que “chaveamos” intimamente a nossa verdadeira intenção de nos desenvolvermos espiritualmente, passando de algo puro e ingênuo que inicialmente aspirava genuinamente ao amor e ao bem comum, para as nuanças da vaidade e do orgulho, por maior contrassenso que isto possa parecer, mesmo que as nossas ações sejam boas na prática, não estaremos amealhando na nossa organização energética e consciencial os méritos positivos que poderíamos ter com as nossas ações.
Manter o propósito e o trabalho firme em conhecer quem realmente somos é trilhar um caminho que leva ao autoconhecimento. Perceber a nossa conexão mística e desenvolver disciplina para traduzir isso no nosso dia-a-dia nos leva para a estrada da autoformação. O cultivo do amor e a busca da ética como motivação das nossas ações nos conduzem à autossuficiência consciencial.
Conhecer a nossa natureza também nos confere maior habilidade para nos relacionarmos com adequação e harmonia.
Balancear a ecologia interna é como afinar um delicado instrumento, temos de aprender a perscrutar o nosso íntimo com tal finalidade. Em algum ponto desse processo, vamos nos deparar com as primeiras notas da canção do nosso eu maior.
Já que todos nós somos realmente irmãos, musicistas parceiros de uma mesma melodia, importa que cantemos a música que brotará do íntimo do nosso coração e façamos parte da bela sinfonia universal.

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